Ame sua luz, mas ame também a sua sombra

No lado sombra, o homem guarda desejos reprimidos e muitas emoções consideradas negativas. Quando essa parte da psique não é aceita, os malefícios são inúmeros – para si e para a sociedade. O preconceito e a ansiedade são alguns deles

Conforme o tempo passa, o ser humano vai mostrando a sua extraordinária inteligência, uma capacidade incrível de criar novos produtos com tecnologias surpreendentes. No entanto, conforme o tempo passa, mostra
também sua dificuldade com algumas questões, como a intolerância religiosa, sexual, de etnia, gênero, ideias e classe social. Há séculos o homem mata, faz guerras, pratica os mais diversos tipos de violência e abusos porque não aceita o comportamento, o estilo de vida, as opções e a cor do outro.

Rosângela Teixeira, terapeuta floral e psicóloga de orientação junguiana (Carl Gustav Jung, 1875-1961, foi um psiquiatra e psicoterapeuta suíço), diz que, segundo essa vertente da psicologia, a intolerância ocorre devido ao mecanismo de projeção da sombra.

“Jung falava da sombra como ‘a coisa que uma pessoa não tem desejo de ser’. É o nosso lado constituído pelos sentimentos desagradáveis, como culpa, ódio, ciúme, orgulho, desejos sexuais, egoísmo, traumas que precisam ser negados, reprimidos e esquecidos”,

relata ela. “Assim, para tentar extinguir aquilo que não suportamos em nós mesmos, usamos o artifício de projetá-lo no outro. É muito mais fácil, por exemplo, ver a inveja do outro do que a própria.”

De acordo com Rosângela, que ministra cursos sobre o tema, a sombra é criada na mais tenra infância, quando a família, amigos e professores ensinam o que pode e o que não pode ser feito ou dito.

“Ouvimos desde muito cedo que é errado sentir raiva, medo e desejo. ‘Engole o choro’, ‘assim mamãe não vai gostar de você’, ‘tira a mão daí, é feio’, ‘menina bonita não faz isso’, ‘papai não vai mais se orgulhar de você’. Ou seja, aprendemos nessa fase da vida que somos ‘bonzinhos’ quando temos determinadas atitudes e ‘maus’ quando temos outras.”

Para ser aceita, reconhecida e para não sofrer, a criança começa, então, a deslocar para o inconsciente tudo aquilo que causa desaprovação. Com isso, a sombra é criada e a espontaneidade de ser, perdida.

O preço da sombra rejeitada

Porém, não aceitar a própria sombra causa inúmeros problemas. Um deles
é se tornar cruel, julgador, agressivo e preconceituoso. Renata Czekay, cientista social, professora de sociologia, pesquisadora e conselheira do Centro de Estudos e Memória da Juventude (CEMJ), lembra de como isso se reflete no Brasil.

“Os brasileiros se gabam de viver todos juntos – negros, brancos, miscigenados, ricos e pobres –, em paz e harmonia. Mas, quando observamos as escolas, os presídios e as igrejas, podemos mapear
exatamente a segregação social e racial.”

Rosângela esclarece que a sombra é muito perigosa quando não é reconhecida ou quando é reprimida, pois ela ganha força e pode até mesmo se sobrepor à personalidade consciente, tornando a pessoa refém dela. “Passamos a pulsar ódio e ganância. Muitas das guerras de cunho espiritual, a homofobia, a pedofilia nas famílias e instituições religiosas são resultados dessa repressão.

Os ataques terroristas geralmente em lugares de diversão simbolizam o ódio pela liberdade e alegria.” A terapeuta conta ainda sobre os problemas emocionais causados pela sombra rejeitada. “A ansiedade nada mais é
do que uma estratégia do ego para não entrar em contato com os sentimentos e emoções intensamente dolorosos e traumáticos.” Segundo ela, a síndrome do pânico também está conectada ao medo de mergulhar na sombra. “A brutalidade do pânico é proporcional aos conteúdos
inconscientes muito reprimidos”, avisa.

Somam-se a isso outros sintomas. “As preocupações e expectativas exageradas, medo do futuro e controle obsessivo podem muito bem estar a serviço de um ego medroso com intenção de anular a exigência interna de uma descida ao mundo inconsciente.”

Ame todas as suas partes

Para acabar com tanto sofrimento imposto a si mesmo e ao outro, uma das mais eficazes atitudes, conforme Rosângela, é integrar a sombra, reconhecer que ela existe, assim como é importante honrar o lado luz – onde estão as virtudes, como amor, compaixão e tolerância. “Integrar a sombra é aceitar que sentimos ódio, inveja, culpa… Dessa forma, não somos dominados por essas emoções e sentimentos e o equilíbrio psíquico é restaurado. Se nos mantemos projetando nos outros a nossa sombra, a consciência não consegue ser ampliada”, explica a terapeuta.

“Não há um lado melhor do que o outro. A nossa sombra não é maligna nem quer nos fazer mal. Seu trabalho é nos tornar honestos, reconhecendo aspectos nossos negativos que precisam ser integrados à consciência, ajudando as pessoas a fazerem o mesmo. Com isso, suavizamos a culpa e deixamos de atender aos scripts familiares para seguir os nossos próprios scripts.”

Ainda de acordo com Rosângela, é muito importante que os cuidadores aprendam a lidar com as crianças sem censurar suas emoções e impulsos.

“Só assim elas aprendem que não é errado sentir seja lá o que se está sentindo, da inveja do coleguinha a sentir prazer com o próprio corpo. Com isso, a criança desenvolve a capacidade de aceitar como o outro é.”

Nessa completa autoaceitação – do lado luz e do lado sombra –, o sujeito torna-se menos intolerante e mais aberto às diferenças. “Quando a antropologia coloca luz na diversidade cultural, ela está dizendo: não existe melhor nem pior, mais evoluído ou menos evoluído. Há culturas diferentes em diferentes tempos e espaços. Se a igualdade está na diferença, acabou a intolerância”, explica Renata.

Florais para lidar com a sombra

Rosângela Teixeira sugere algumas essências de Bach adequadas às questões da intolerância e preconceito.

Um mergulho na própria sombra:

Heather: para quem é extremamente autocentrado e egocêntrico, sinal de que há uma grande carência com a qual não se quer entrar em contato.

Chicory: para quem é possessivo e controlador. No fundo, esconde o medo de não ser querido pelo outro e resiste em se confrontar com esse medo.

Agrimony: para quem oculta suas preocupações colocando uma máscara alegre que encobre suas dores, inquietações e frustrações.

Curando as feridas do preconceito sofrido:

Star of Bethlehem: para regenerar a dor do trauma. O preconceito exclui e tem poder de paralisar, desencorajar e impedir de crescer.

Holly: para a raiva acumulada por tantas agressões e ofensas. Para o medo de se abrir para o mundo e confiar nele, pois nos sentimos traídos quando não somos aceitos em nossa singularidade.

Pine: para a culpa de ser diferente, de não ter agradado, de não ser aceito.

Sem julgamento e sem preconceito

Beech: para quem é julgador e está sempre apontando para aquele que é diferente de si.

Vine: para aqueles muito duros, mandões, insensíveis e dominadores.

Rock Water: para quem é dono de um padrão idealista, perfeccionista e rígido. Excessivamente autocrítico.

Clique aqui e assista ao vídeo do projeto Escolhas – Holly com relatos de quem assumiu a própria inveja, raiva e ciúme e viu sua vida transformada.

Ilustração: Sandra Javera
Contatos: Renata Czekay – renataczekay@gmail.com
Rosângela Teixeira – rosangelateixeira.floral@gmail.com

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