O Yoga é para todos

Muito além das posturas físicas e dos exercícios respiratórios, indicados para todas as fases da vida, a prática ancestral desperta nossos corpos sutis, energético e espiritual, além de nos ajudar a navegar por nossas emoções.

Sandro Bosco tem o dom de transmitir o ensinamento yogue mais profundo como se estivesse contando um causo no portão de casa. A sabedoria se desprende dele, penetra nosso coração e areja salas até então fechadas em nossa mente. Ouvi-lo é sempre uma experiência transformadora. Saímos da conversa com um estranhamento bom. Estamos ligeiramente modificados, porém de um jeito significativo. Ganhamos claridade.

No bate-papo a seguir, o professor de yoga e meditação, além de escritor e palestrante, fala sobre sua área de especialização com a tranquilidade e a segurança de quem pisa nesse solo há muito tempo. Certamente, muito mais do que os 45 anos dedicados a essa missão nesta existência. Aproveite para aprender um pouco mais sobre a arte ancestral do yoga e descubra como ela remexe e transmuta as múltiplas camadas do nosso Ser.

O yoga ainda é confundido com misticismo?

Ofereço muitos conteúdos abertos e gratuitos no Youtube e no Instagram. Abro espaço para as pessoas se alimentarem. Tenho essa busca e esse esforço de encaixar o ensinamento numa roupagem desmistificada. Faço isso porque muitas pessoas olham a espiritualidade como misticismo, e que é, não tem nada de errado nisso. O problema é que o misticismo dá margem a fantasias, tanto por parte do mentor quanto do mentorado, criando um elo. Era melhor que não houvesse fantasias. Misticismo é o inexplicado pela mente, tantas coisas que a Ciência não explica. Não por isso ela é “perneta”. Pelo contrário, ela resolve muitas coisas.

Além do aspecto físico, o yoga atua nas dimensões energética e espiritual. Pode explicar como isso se dá?

Quando o Ocidente começou a importar o yoga do Oriente no começo do século passado o que mais vingou foi a visão do Hatha Yoga, cujas ferramentas são as posturas físicas e as técnicas de respiração. Entretanto, este é apenas um aspecto. Usando a imagem da árvore, seria um ramo dela. Existem outros ramos que dão outros frutos e outras flores. Essa importação do yoga da Índia foi facilmente configurada por comparação com o exercício físico. Historicamente, o Hatha Yoga se organizou por volta do século X, quando se estabeleceu uma gama vasta de posturas, que, como mostram os templos hindus, com suas esculturas, já existiam há pelo menos três mil anos. Quanto mais longe a gente pensar no yoga, mais colado ele estará do aspecto religioso, uma vez que o ser humano, lá atrás no calendário, estava ligado à religiosidade, se espelhando nas formas da natureza. Com o advento do Budismo e do Cristianismo, o foco se deslocou para os ensinamentos de uma pessoa, de uma persona, de um sábio, um Deus. As culturas ancestrais, ao contrário, percebiam que a natureza é movida pelos temperos da energia. Os oceanos, os ventos, fenômenos que não controlamos até hoje, mesmo com toda a tecnologia da qual dispomos. Nossos ancestrais viam Deus na natureza através da energia. Então, os iogues deram a ela o nome de prana e viram que ele está em tudo. No coração que bate, na respiração que se movimenta, no trovão, no calor do sol, no curso do rio, no movimento dos oceanos, na gravidade, na união das moléculas. Tudo é uma manifestação dessa energia básica, primordial: o prana. Nesse sentido, existe esse aspecto energético ligado ao plano espiritual, que nós seres humanos não conseguimos entender por meio da nossa mente.

Qual a diferença entre mente e consciência?

Vamos ter que entender e perceber o aspecto espiritual com alguma capacidade que está além da mente ou por detrás dela. No yoga se diz que a mente (chitta) é uma parte da consciência criadora (chit), que está em tudo, na grama, no fio de cabelo, no coração, na respiração, ou seja, em várias graduações, mas em todos os seres vivos animados e inanimados. A mente é o que nos diferencia do restante dos seres vivos, que nos traz a razão e, com ela, os conflitos. Ela é feita da matéria da consciência. A medicina Ayurvédica, da qual o yoga faz parte, concebe o ser humano como físico, mental e espiritual. Somos seres espirituais e temos um papel, uma função e um campo de energia espirituais.

De acordo com a tradição iogue, somos constituídos por diferentes corpos. Quais são eles?

A concepção válida por milênios nos diz que somos constituídos de cinco corpos ilusórios. Ilusórios não porque eles não existam ou porque são fantasiosos, e sim no sentido de não serem permanentes. São eles: anna maya kosha – corpo ilusório feito de alimentos, nosso corpo físico; prana maya kosha – corpo ilusório feito de energia, que é alimentado pela respiração; manas maya kosha – corpo ilusório  mental; vijnana maya kosha – corpo ilusório feito do intelecto que traz consigo o discernimento, digamos, uma certeza intuitiva e ananda maya kosha – corpo ilusório feito de bem-aventurança ou felicidade, êxtase. Embora este último contemple um padrão energético muito alto, que transcende a dualidade, todos nós nascemos com ele. E o Hatha Yoga foi concebido justamente para nos conduzir ao ananda maya kosha. Um estado em que não existe mais sofrimento pelo sim ou pelo não. Cedo ou tarde ele virá. Isso não significa que o corpo mental deixe de existir, e sim que ele fica em segundo plano. O que vivemos de aflição e angústia se deve ao fato de que manas maya kosha está no seu auge, já que vivemos no período da razão. O fundamental é nos darmos permissão. Nos permitirmos estar em contato com esse corpo de bem-aventurança, tornar essa consciência real.

Como os asanas se refletem no campo emocional do praticante?

Na minha primeira década no Hatha Yoga, tive contato com alguns pioneiros no Ocidente dessa concepção de corpo físico/energético. Um deles foi Wilhelm Reich e seus discípulos. O que eles trouxeram de muito significativo para mim como praticante das posturas de Hatha Yoga? A seguinte compreensão. Emoção vem do latim, emovere, aquilo que está em movimento. Portanto, nossas emoções são fluidas, não estão nos ossos, e sim nos músculos. Isso nos dá um universo aberto de investigação. Então, Reich trouxe o orgônio, que para nós, no yoga, equivale ao prana. Ele também trouxe o conceito de couraça muscular. Tocava a pessoa com um tipo de abordagem corporal criada por ele e ela entrava numa convulsão emocional para liberar aquela emoção através dos músculos. Lá atrás, nós, estudantes e professores de yoga, percebíamos que praticar as posturas é uma forma homeopática de você fazer essa transformação, de você permitir a fluidez dessa energia emocional, porque junto a qualquer pensamento vem emoção atrelada a um sentimento maior ou menor e o nosso corpo reflete tudo isso. Essa “homeopatização” da prática regular do yoga você abraça como um modo de vida. Chegou um determinado momento em que eu senti muita falta de um trabalho de posturas de yoga mais profundo. Quase adotei a psicobioenergética. Mas aí me dei conta de que já tinha feito aula na Índia com B.K.S Iyengar e era aquilo que eu queria, pois sabia que a forma como ele orientava as posturas era muito profunda, mesmo para iniciantes. Aí foi uma maravilha.

À medida que emoções e sentimentos vão aflorando durante a prática do yoga, é interessante o aluno compartilhar essas vivências e sensações com o professor?

A melhor coisa a se fazer é continuar praticando, porque as coisas vão “entrando no lugar”. Um lugar de expansão. Mesmo que a pessoa esteja confusa, é recomendado que ela tolere esse estado de confusão, claro, desde que ele não esteja acarretando dificuldades como não conseguir se relacionar com mais ninguém ou outros movimentos autodestrutivos. Pois há de ocorrer uma desorganização, uma desconstrução. Por exemplo, uma pessoa desenvolveu uma doença autoimune, que, a meu ver, tem um momento de cisão com a vida enquanto aliada, uma vez que aquele indivíduo está perdendo seu exército de defesa. E pior, ele se volta contra si próprio, encurtando o caminho da vida e acelerando o caminho para a morte, porque a vulnerabilidade só se intensifica. Então, é preciso haver uma desconstrução daquilo que foi construído. Nesse sentido, se o yoga vai desmanchar uma estrutura emocional que você tem, seja de ansiedade, seja de pânico, seja de depressão, isso precisa ser feito porque ela não está funcionando bem. Claro que, muitas vezes, aconselhei meus alunos a buscarem uma terapia. O que acontece é que o praticante passa a perceber uma série de coisas em si. No final da aula, contudo, há o relaxamento, a postura shavasana, a postura do cadáver, que vai treinando a gente para morrer, deitado com as palmas das mãos para cima sem se mexer. Ela é colocada no final da prática porque é altamente eficiente para reequilibrar as energias do corpo. Se a pessoa ficou muito excitada com a aula, o shavasana vai permitir que ela continue desperta, mas não excitada; se a prática levou a pessoa muito para dentro e mexeu com algumas coisas, o relaxamento final vai levá-la mais para fora. Acontece o encerramento daquela mobilização de energia. Em geral, as pessoas querem continuar nesse estado pelo resto da vida, costumo brincar. O que exprime essa sensação? Saciedade em todos os planos. O desejo caiu por terra. O ego está perdido naquele momento. É o prolongamento de um estado sem ego. A mente, que segue a toque de caixa os anseios egoicos, se apaziguou. Nesse momento, está tudo bem. É um momento de unidade.

A prática de asanas nos ajuda a entrar em estado meditativo, ou seja, seria mais difícil simplesmente se sentar e meditar?

Sim, elas nos preparam para isso. Após o shavasana, é o momento ideal para se sentar e permanecer cinco minutos, incialmente, assim. É o momento ideal para desfrutar do estado de yoga chitta vrtti nirodha, o estado de aquietamento das ondas cerebrais. Não tem pensamento, mas não estou dormindo. Não tem pensamento, mas não estou em coma. Não tem pensamento, mas não desmaiei. Não tem pensamento, mas não estou alcoolizado. A prática de Hatha Yoga, ou seja, as posturas atreladas às técnicas de respiração, deixa você no portal da meditação, pois cria toda a base física, emocional e mental para ela. Mas também, quando você consegue pausar em algum momento do dia, está muito pronto para meditar. Por falar nisso, quero salientar um ponto. Quando a pessoa começa a gostar demais da meditação, o corpo passa a reclamar. Ela fazia 15 minutos, depois passa para 20, 30 minutos, 1 hora. O corpo até fica imóvel por 1 hora, porque a consciência, às vezes, o abandona. Mas, se ele não se mexer, ele sofre. Por isso, é preciso ter algum trabalho corporal para ter saúde ósseo-muscular e preservar as articulações. Caminhada, yoga, pilates, alimentação adequada. Vira uma mudança de vida. A pessoa que gostava de beber cerveja vai reduzir o consumo na noite anterior para acordar bem disposta e meditar. Com o tempo, ela vai atingir através da meditação o grau de saciedade da mente quieta que antes a cerveja lhe dava. Até que um dia não vai se proibir de tomar cerveja, simplesmente vai se esquecer dela.

Saiba por que acalmar a mente é um exercício acessível a qualquer um, na visão de Sandro Bosco.

Por que o alinhamento das posturas é um ponto tão importante conforme ensinou o mestre B.K.S Iyengar?

O alinhamento é muito interessante, porque é extremamente saudável para a estrutura ósseo-muscular. Nesse sentido, B.K.S Iyengar foi o Leonardo da Vinci do yoga, pois apresentou a forma correta de fazer as posturas. Se você quer meditar você vai precisar de uma postura firme e sem tensão, só firmeza. Tensão já é rigidez; firmeza, um passo antes da rigidez. Então, o que acontece quando um professor não trabalha com alinhamento? Ele vai encontrar algumas posturas que o corpo dele não permite que sejam feitas. Daí ele para de ensiná-las para os alunos, porque ele precisaria demonstrá-las. Com o alinhamento ele verá que ainda é possível fazer as posturas com 70, 80 anos. É a forma mais eficaz de fazer a gama enorme de posturas do Hatha Yoga a longo prazo. Você envelhece e continua ativo, preservando o espaço interno dos órgãos e as articulações. Uma aluna me disse certa vez: “Eu me sinto por fora mais enxuta e por dentro com muito mais espaço”. Sim, ela cresceu por dentro e por fora está mais firme, mais ágil. Assim conseguimos prolongar o que é mais essencial e que, com o tempo, perdemos: a mobilidade.  E mobilidade é vida. O alinhamento tem outra função maravilhosa que é focar a mente no que você está fazendo. Você alinha a mente, na faculdade da atenção, ao corpo físico durante o tempo de prática, o que aumenta a qualidade dela.

E qual é o papel dos acessórios utilizados pelo método de B.K.S Iyengar?

O uso dos acessórios é muito inteligente, pois ele faz o praticante acessar mais rapidamente ou com mais profundidade um grupo muscular. Mas também pode criar dificuldades, o que é muito interessante. Ele é muito menos muleta do que estimulador. O Hatha Yoga ensina que o cérebro está no corpo inteiro, ou seja, somos uma constante resposta de estímulos físicos e bioquímicos. E os acessórios entram ainda numa coisa maravilhosa que é a compaixão. Pois o yoga é para todos, sim. Se eu tiver o mínimo de acessórios necessários, posso dar aula, como já fiz milhares de vezes, para uma pessoa com uma perna só, um braço só, para adolescentes, idosos, veteranos do yoga. Esse sistema é altamente inclusivo e torna a aula muito mais eficiente e próspera. Quando eu fiz a primeira aula na Índia, com B.K.S Iyengar, numa sala cheia de gente, enxerguei uma luzinha. Olhei para o lado e tinha um paraplégico derramado no chão. Então, vi o Iyengar fazendo algumas posturas com ele e colocando-o em pé. “Nossa, que conhecimento da mecânica do corpo esse senhor tem”, pensei e desejei: “Eu quero isso. Será que vou poder ter isso um dia?”. Ali plantei essa sementinha no meu coração. E depois rolou. Quando fui convidado para dar aula para o jornalista e escritor Marcelo Rubens Paiva, paraplégico, não tinha feito curso de yoga para paraplégicos. Pedi para que ele providenciasse alguns acessórios e foram anos de aprendizado e descobertas valiosas. Ele tem o que qualquer pessoa que começa yoga e meditação precisa ter: boa atitude. Era brincalhão, aberto e disposto. A postura mais importante do yoga é a postura interior. Bhavana, sentimento gerado por uma atitude interior, que podemos cultivar e honrar antes de qualquer nova iniciativa.  Me emociono ao falar disso.

Podemos guardar e acalentar, então, esse ensinamento riquíssimo?

Podemos.

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Sandro Bosco

Sandro Bosco é professor, escritor e palestrante. Há mais de 45 anos estuda e ensina as relações mente e corpo através do Hatha Yoga e Meditação. Atualmente ministra palestras, cursos e workshops no Brasil, Itália, Portugal e Espanha. É também autor de quatro livros sobre Yoga e Meditação. Mais de 1000 alunos formados no Brasil e no exterior.

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