Propósito de vida, por Lama Michel

A importância de se ter um propósito interno, que faz com que a vida seja vivida como um meio e não como um fim, é um dos muitos pontos importantes abordados nesta entrevista por Lama Michel Rinpoche. Com a clareza e profundidade que lhe são características, ele esmiúça esse tema tão necessário de ser pensado, refletido e colocado em prática.

Lama Michel Rinpoche nasceu em 1981, em São Paulo. Com 5 anos teve seu primeiro contato com o budismo tibetano quando conheceu o seu mestre, Lama Gangchen Rinpoche. Nos anos seguintes, foi reconhecido como um tulku, a reencarnação de um mestre budista tibetano. Com apenas 12 anos decidiu se engajar na vida monástica, no monastério de Sera Me, no sul da Índia, onde recebeu a formação tradicional que é dada aos Lamas, tanto em filosofia quanto em práticas de meditação. Em 1994 foi entronizado e dois anos depois passou a estudar no monastério de Tashi Lhumpo, em Shigatse, no Tibete, onde se dedicou aos estudos de filosofia, tantra, medicina e astrologia.

Lama Michel Rinpoche como seu mestre Lama Gangchen Rinpoche

Desde muito jovem, Lama Michel viaja pelo mundo com Lama Gangchen, ministrando palestras e ensinamentos, sempre de forma simples e esclarecedora. Nesta entrevista, contamos com a participação de sua mãe, a psicóloga do budismo tibetano, Bel Cesar, que carinhosamente transmitiu as perguntas para ele – quando esteve em Albagnano, na Itália, onde Lama Michel vive ­ – e participou da entrevista com seus preciosos conhecimentos.

Keila: O que o budismo tibetano entende por propósito de vida?
Lama Michel: Eu não posso dizer o que o budismo tibetano em si entende por propósito de vida. Posso dizer qual é o meu próprio entendimento, dentro do budismo tibetano, sobre o propósito de vida. O que eu entendo é que é o objetivo, coerente com os recursos que temos, que queremos atingir. Na verdade, é o fato da gente poder usar essa vida na qual a gente vive ­ – e ela é preciosa – de uma forma que seja significativa. É o não viver apenas por sobreviver, mas viver como meio que nos leve a algo que continua tanto nesta vida quanto depois dela. O budismo Mahayana nos traz que não é um propósito individual, mas do bem-estar coletivo. Só que para contribuir para o bem-estar coletivo, nós precisamos antes desenvolver nossas qualidades, superar nossos limites, nossos assim chamados venenos mentais, para poder, então, ajudar e contribuir de uma forma verdadeira para o bem-estar comum de todos.

Keila: Por que é importante termos um propósito de vida?
Lama Michel: Principalmente pelo fato de a nossa vida ficar vazia. Se a gente não tem um propósito, as nossas ações não vão estar sendo direcionadas a algo e elas vão fazer com que continuemos sendo mais ou menos o mesmo daquilo que já somos. A gente vai passar a nossa vida tentando evitar os sofrimentos, tentando ter prazeres, resolvendo problemas, lidando com as situações, mas, na verdade, sem estar construindo algo que depois a gente possa estar vivendo com clareza esses resultados. Se não há um propósito, mesmo quando está tudo bem – materialmente, fisicamente e socialmente -, ainda assim existe uma profunda insatisfação, um estado de falta de paz interior, que leva a um desespero muito grande. Então, diante disso,

é muito importante ter um propósito de vida porque ele dá significado a cada uma das nossas ações e diminui o peso das dificuldades do nosso dia a dia, pois a vida é vivida como um meio e não como um fim.

Keila: O que nos impede de ter esse propósito?
Lama Michel: A nossa falta de visão e a falta de acreditarmos em nós mesmos.

Lama Michel fazendo a oferenda da mandala

Keila: Como descobrir o nosso propósito?
Lama Michel: Eu acredito que existem vários propósitos que podem ser colocados. E, muitas vezes, tem até uma coisa de ficar buscando demais, buscando demais, buscando demais até encontrar qual é o grande propósito, mas isso acaba sendo quase um empecilho mais do que uma ajuda. Num certo momento, a gente simplesmente tem que se lembrar que esse propósito não é fixo, no decorrer da vida ele pode ir se transformando, vai ficando mais claro. Não é uma coisa que não pode mais mudar.

Bel: Você diz que importante não é o que nós realizamos, mas em quem nos tornamos.
Lama Michel: Sim,

existem duas formas de propósito: os propósitos externos, que é como a gente quer que o mundo a nossa volta seja

– eu quero ter uma situação financeira desse tipo, saúde daquele tipo, ter pessoas a minha volta assim, quero que o mundo seja assim, que aquilo seja assado, … –,

que é um propósito que nasce em parte podendo funcionar e, em parte, com frustração porque não temos controle sobre o mundo a nossa volta. E existe um outro que é o propósito interior, que eu, pessoalmente, acredito mais que todos porque é o qual nós temos muito mais poder de poder realizar. O meu propósito é eu estar bem comigo mesmo, com o mundo a minha volta,

com as pessoas e com as situações, independentemente de onde eu estiver, com quem eu estiver e em qual situação eu me encontrar. Podemos ter o propósito interior de estabilidade, de satisfação, de dar amor, de compaixão, de sabedoria. Esse propósito interior é muito bom porque, entre outras coisas, ele nos permite seguir esse propósito independentemente do que aconteça na nossa vida, não tem condições que possam impedi-lo. “Ah, eu posso seguir esse propósito se isso for assim e aquilo for assado”. Não, não tem isso. Qualquer coisa que ocorra na nossa vida é um meio, um instrumento. Eu acho que isso é extremamente importante. Podemos ter propósitos externos, que são superficiais, mas mesmo os propósitos externos devem ser como um meio para um propósito interno maior. Se a gente tiver claro o propósito interior, os propósitos externos vão ser momentâneos. Se eles forem bem, bem, e se não forem, está tudo bem, vamos seguir adiante seguindo o nosso objetivo maior.

Keila: Quais elementos precisamos cultivar para realizar o nosso propósito?
Lama Michel: Não sei, porque isso depende do propósito que você tem (rsrsr). Na verdade, o que você precisa ver é: quais recursos eu possuo, diante desses recursos que eu tenho, onde eu quero ir, o que eu quero me tornar, o que eu quero realizar e, diante disso, depois, a gente tem que trabalhar para desenvolver esses recursos. Então, se eu tenho um propósito interior, eu tenho que cuidar da minha fala, das minhas ações, das minhas escolhas. Na verdade, a gente tem que cultivar um propósito, a gente tem que desenvolver ele gradualmente e isso a gente faz através das nossas escolhas e ações diárias.

Como os pais podem ajudar seus filhos a descobrirem seus propósitos de vida desde a primeira infância?
Lama Michel: Tendo um próprio objetivo de vida. Se os pais não têm propósito na própria vida, eles não têm como transmitir isso para os filhos. Mas, ao mesmo tempo, eles têm que ter a abertura para que o filho chegue a desenvolver o próprio propósito de vida. E não é uma coisa que se desenvolve na primeira infância, é algo que você vai desenvolvendo no decorrer da vida, depois da adolescência e mais para frente… E olhe lá para ter essa clareza.
Bel: É, porque os valores e os princípios a criança aprende sem se dar conta que ela está aprendendo.

Keila: Como você entende os impeditivos que a sociedade ocidental atual prega que nos afasta do nosso propósito?
Lama Michel: Primeiro, não é a sociedade ocidental. Depende de qual é o propósito porque

se a gente tem um propósito que é baseado em riqueza, em fama, em poder, em reconhecimento, etc, é o que a sociedade a nossa volta nos prega. Mas se a gente tem um propósito que é de um estado interior de equilíbrio, de paz, etc, na verdade, um propósito que é maior do que apenas o momento presente, um propósito interior, do bem comum, que transcende o eu e o meu, a nossa sociedade, muitas vezes, não nos ajuda nisso.

Principalmente, um dos maiores empecilhos que eu acho que existe hoje em dia é o fato que a nossa sociedade está em grande parte direcionada para um estímulo de satisfação imediata. Então, na verdade, a gente está buscando prazeres e satisfações imediatos e isso nos tira a visão a médio/longo prazo. É tudo a curto prazo e muito imediatista. Quando um propósito não é imediato, é a longo prazo, é uma utopia, é algo que a gente coloca longe para poder caminhar nessa direção. E a nossa sociedade hoje trata a utopia como algo infantil, bobo, estúpido, quando, na verdade, é extremamente importante.

Há algo mais que gostaria de dizer?
Lama Michel: Uma coisa. A grande maioria de nós não tem a capacidade de desenvolver um próprio propósito. Então, a gente acaba seguindo o propósito que outros colocaram. Não conseguimos fazer o nosso próprio sonho, acabamos, então, seguindo o sonho de outros. É aquilo que se vê um pouco nas religiões, os budistas acabam seguindo o sonho de Buda e assim por diante. Alguém teve essa visão, compartilhou ela conosco e acabamos seguindo a visão de alguém. Isso me lembra agora um conceito de um filósofo ocidental, que era Nietzsche (Friederich Nietzsche, 1844-1900, filósofo). Ele tinha o conceito que era chamado de O Último Homem. E uma vez escutando uma pessoa falar sobre esse conceito, ela deu a seguinte descrição, que eu não sei se é a metáfora que ele mesmo trazia ou não, mas é o seguinte: o último homem é aquele homem que se contenta com a própria sobrevivência e não tem a força de seguir um propósito maior. É aquele que olha para a estrela, acha ela legal, mas não tem a força de poder se imaginar chegando nela e ele se contenta em estar aqui porque a dificuldade de ir até lá é tão grande que ele não quer colocar nenhum esforço. É a falta de acreditar que eu posso fazer algo melhor e maior de onde estou, que eu posso ir além. Precisamos acreditar em nós mesmos, no nosso potencial, isso é profundamente importante. Mas, a dificuldade é que esses propósitos, esses objetivos maiores funcionam, se a gente for usar um termo moderno, na base da propaganda. O que acontece é: alguém vende as ideias. Por exemplo, tem a propaganda de um carro, o que nos mostra? Se você tiver esse carro, você vai ser feliz, atraente, vai ter isso e aquilo através desse carro. Aí a pessoa tem o objetivo, o propósito de ter aquele carro, ela vai colocar energia para ter aquele carro.

Só que hoje em dia a gente tem pouca propaganda de coisas maiores e mais profundas que transcendem o eu e o meu. Somos constantemente bombardeados por propósitos e objetivos bem temporais e superficiais. É o carro, a roupa, o prazer, … Nada contra cada um deles por si, mas são propósitos que são ilusões de um estado de equilíbrio e felicidade. É importante a gente entrar em contato com conhecimentos de pessoas que têm um propósito maior na vida

e que podem estar compartilhando esse propósito maior com a gente para que possamos chegar na nossa própria visão e acreditar e seguir ela.

Bel: Eu entendo que, quando você não tem um propósito, você tem que olhar uma pessoa que tem um propósito maior capaz de te inspirar. Mas é muito perigoso também, né? Porque muitas pessoas hoje estão se envolvendo com propósitos que não são seus e e estão seguindo…
Lama Michel: Mas sempre foi assim. As pessoas sempre se envolveram com propósitos que não são seus e acabam seguindo. Isso sempre foi assim. O perigo que eu vejo é que com o desenvolvimento da Internet, das redes sociais e de todo o resto, a gente não tenha mais o hábito de se aprofundar nos conhecimentos. Isso tem diminuído muito a capacidade de entendimento, de julgar e faz com que sejamos muito mais facilmente manipuláveis e, nesse sentido, isso acaba sendo perigoso. Porque quando a gente compreende, quando a gente vai a fundo, o nosso nível de conhecimento não serve só para saber, mas são os recursos que temos para ter o nosso próprio entendimento e julgamento das coisas. E hoje em dia, tendo cada vez mais uma visão superficial das coisas, pois o conhecimento se encontra aí à disposição, então, eu não preciso possuir ele. Assim, na hora que eu tenho que julgar algo, se é bom ou ruim, se é certo ou não, eu não tenho recursos, daí eu acabo acreditando naquilo que nos trazem.

Bel: Talvez possamos fechar com aquele dito do Buda: você vai escolher como quem compra ouro…
Lama Michel: Tem uma frase na qual Buda diz: não siga os meus ensinamentos apenas porque eu disse, não acredite naquilo que eu disse apenas porque eu disse. Faça como se faz quando vai comprar ouro. Deve-se cortar o ouro, ralar o ouro, queimar o ouro para ver se ele é verdadeiro ou não. Da mesma forma, vocês devem analisar, observar e checar se aquilo que eu estou dizendo é verdadeiro ou não. Uma vez que vocês chequem que aquilo é verdadeiro e correto, isso sim deve ser colocado em prática.

Lama Michel orienta no Brasil, junto com Lama Gangchen, o Centro de Dharma da Paz, em São Paulo. Realiza, com regularidade, conferências em congressos, é autor de diversos livros, vice-presidente da Fondazione Lama Gangchen per una Cultura di Pace, na Itália, e presidente da Fundação Lama Gangchen para a Cultura de Paz, no Brasil.

Contato:

Albagnano Healing Meditation Centre: www.ahmc.ngalso.net

Centro de Dharma da Paz: www.centrodedharma.ngalso.org

 

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