A depressão e uso dos florais de Bach como uma prática complementar no cuidado de idosos asilados

Veja nesse artigo como os florais ajudaram idosos asilados nos quadros de tensão, angústia, irritabilidade e outras questões emocionais próprias da terceira idade.

1. Introdução

Desde o momento em que somos gerados, já iniciamos um processo de envelhecimento. Envelhecer é um acontecimento natural e fisiológico, no envelhecimento sadio (senescência) ocorrem várias modificações orgânicas em razão da idade cronológica, modificações morfológicas, funcionais, bioquímicas e psicológicas, no patológico (senilidade) algumas funções podem ser mais prejudicadas que outras, o que modifica a autonomia da pessoa. (Converso, 2007).

Nesse processo o sistema nervoso será um dos mais comprometidos, ocasionando transformações importantes nos relacionamentos sociais havendo também influências de fatores psicológicos, físicos e da saúde mental. Em idosos aumentam os riscos para problemas psicológicos tais como ansiedade, depressão e desesperança, sintomas estes que são comuns como queixas clínicas, porém, pouco investigados pelos médicos ou outros profissionais no contexto clínico (Oliveira, 2006) e somando-se a isso ainda há neste estudo a questão social do idoso institucionalizado.

O nosso modelo econômico capitalista baseia-se na valorização do homem enquanto capacidade produtiva, somos valorizados de acordo com o quanto podemos produzir, portanto na velhice perde-se o valor simbólico (Pestana, 2008), o idoso passa, então, a ocupar um lugar marginalizado na existência humana, tornando-se um problema, uma vez que, além de diminuir a sua capacidade de produção de riqueza, será uma pessoa que exigirá mais tempo e cuidados de um familiar.

Como decorrência destes fatores são frequentes sintomas como insônia, tensão, angústia, irritabilidade, dificuldade de concentração, bem como sintomas físicos como taquicardia, tontura, cefaleia, dores musculares, formigamento, suor (Oliveira, 2006). No caso da depressão aparece, entre outras, a sensação de tristeza, autodesvalorização, apatia, perda do interesse e prazer em atividades agradáveis, fadiga, além de alterações no sono, no apetite e nas funções psicomotoras.

Como veremos a seguir, a ação de alguns florais se dá exatamente neste rol de sintomas, corroborando assim a indicação deste tipo de terapia para a melhora dos sintomas e harmonização dos estados psicológicos destes idosos, devolvendo-lhe a saúde (Vasconcelos, 2003).O uso dos florais tem como precursor o Dr. Edward Bach, que obteve o conhecimento de que a nossa saúde física depende do nosso modo de pensar, nossos sentimentos e emoções.

Os florais de Bach, portanto buscam tratar a causa das doenças e não as conseqüências físicas, mas sim o que as provocou: as contradições psicológicas, a instabilidade emocional, a indecisão, a fraqueza e falta de determinação, o egoísmo, o ódio, a ignorância, a ambição, a tristeza, a solidão, o orgulho, a rigidez mental, a impaciência, a mágoa, o temperamento violento, o medo, a depressão, a desesperança.

Basicamente os florais de Bach dividem-se em sete grupos:

O preparo dos florais se dá através do uso de flores silvestres e árvores do campo e para a sua preparação utiliza-se da energia solar ou da cocção em água e acondicionamento em líquido conservante. Eles agem nos padrões mentais de cada pessoa, atuando numa dimensão sutil do psiquismo dos indivíduos, nos sentimentos e emoções, equilibrando os estados mentais prejudiciais e prevenindo o sofrimento, a dor e as doenças. Os florais propõem um “encontro consigo mesmo” e um conhecimento das características da própria personalidade.

A escolha dos florais para esta pesquisa baseou-se na avaliação de cada paciente, priorizando-se as principais características emocionais e de personalidade que estão em desequilíbrio naquele momento ou que possam estar influenciando negativamente aquela pessoa. O Dr. Bach chamou as emoções de “estados de ânimo” transitórios da psique e a personalidade de características “tipo”.

2. Objetivos

O objetivo desta pesquisa é avaliar o quanto o uso de florais de Bach pode melhorar a qualidade de vida e proporcionar um equilíbrio emocional de idosos institucionalizados, avaliar e quantificar, através de entrevista e da aplicação de questionários, o quanto se conseguiu na diminuição do aparecimento de sintomas relativos à depressão dos idosos pesquisados.

3. Metodologia

A pesquisa é qualitativa e quantitativa e foi realizada com idosas de idades entre 70 a 92 anos, asiladas em uma instituição de longa permanência localizada na zona norte de São Paulo onde moram cerca de 32 mulheres e 2 homens. Optou-se por fazer o trabalho só com mulheres para delimitar as variáveis, uma vez que a quantidade de homens asilados nesta instituição era pequena.

Para a seleção das idosas foi aplicado um questionário de identificação e a Escala de Barthel que define o grau de dependência funcional, ou seja, o quanto cada idosa necessita de ajuda física ou verbal para se locomover, mudar de posição, alimentar-se, fazer a higiene, utilizar o banheiro, vestir-se. A escala vai de 0 a 100 e quanto maior o valor, menor a dependência da enfermagem para tais atividades. Supõe-se que a dependência funcional pode influenciar o aparecimento de sintomas de depressão (Andrade, 2005) ou que esta possa aumentar a susceptibilidade a perdas funcionais e a dependência de outras pessoas para a realização das atividades de vida diária (AVD’s) (Ávila-Funes, 2007).

Após o esclarecimento da pesquisa e o conhecimento do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, foi aplicada a Escala de Depressão Geriátrica de Yesavage – EDG-15, que consta de 15 perguntas que indicam sinais de depressão, esta escala vai de 0 a 15 e quanto maior o valor encontrado, maior a presença de sinais de depressão, sendo 5 o ponto de corte escolhido para esse trabalho, pois é um ponto adequado e sugerido inicialmente por diversos autores, utilizado também em outros trabalhos. (Paradela, 2005; Ferrari, 2007; Tier, 2006), com evidência de fácil aplicação e bons resultados (Tier, 2006).

Este instrumento serve para o rastreamento de sintomas depressivos na população idosa e inclui uma pequena variação de respostas (sim / não), portanto tem uma aplicação simples não necessitando de pessoal especializado para a sua aplicação, pode ser auto aplicada por um entrevistador treinado e as perguntas são fáceis de serem entendidas (Paradela, 2002), seu emprego evidencia um bom resultado da aplicação em pessoas idosas (Tier, 2006).

Nesta seleção chegou-se ao número de 8 (oito) idosas que entrariam nos critérios de seleção. Havia um grande número de idosas com diagnóstico de doença de Alzheimer, retardo mental e doenças psiquiátricas, além das que não quiseram participar da pesquisa e das que não apresentavam sinais de depressão. Após esse procedimento foi feita uma consulta terapêutica para a definição da primeira fórmula de floral a ser utilizada.

Como o tema central da pesquisa foi depressão optou-se por incluir obrigatoriamente o floral Gentian em todas as fórmulas até o final da pesquisa, uma vez que ele trabalha questões ligadas à depressão e é indicado para pessoas que se sentem desencorajadas, desanimadas, deprimidas, com falta de fé, além dos florais escolhidos individualmente de acordo com as características apresentadas por cada idosa. Todas as pacientes foram acompanhadas por 3 (três) meses,  reavaliadas e tomaram 3 (três) fórmulas, uma após cada avaliação, composta por florais. Para a identificação elas receberam o nome do floral que mais se aproximava de uma característica marcante da personalidade de cada uma.

4. Resultados

Na análise dos resultados constatamos que das oito idosas estudadas, 5 delas (62%) melhoraram da depressão, dado confirmado pela aplicação da EDG-15 que mostrou a diminuição do aparecimento de sinais de depressão.

O gráfico abaixo mostra a variação em relação ao início e fim da pesquisa, verifica-se que em 5 delas (62%) diminuiu o valor na EDG-15 final, portanto diminuiu a ocorrência do aparecimento de sinais de depressão e 3 pacientes (37,5%) (Honeysuckle, Star of Bethlehem e Heather) saíram do valor 5, valor mínimo de corte, isto é, não apresentavam mais sinais de depressão.

Das 3 pacientes que não obtiveram melhora (38%) os índices foram todos mínimos (acréscimo de 1 ponto na EDG-15), ou seja, 6,6 %. Sabemos que os florais podem auxiliar na melhora de problemas físicos, porém esta não é a sua principal indicação. Sabemos ainda que cada pessoa vive de maneira diferente o seu processo de autoconhecimento e cura.

Podemos inferir então que, mesmo os casos que não apontaram melhora neste período de tratamento, se houvesse uma reavaliação posterior, isto é, com um tempo maior de uso da terapia floral, poderiam estar no rol das pacientes que também se beneficiariam com o seu uso. Um dos objetivos do tratamento com florais é o autoconhecimento e possibilitar a conscientização dos desequilíbrios emocionais trabalhando a cura destes, portanto pode haver durante o tratamento uma reagudização dos sintomas para depois ocorrer a melhora.

5. Conclusão

Não há dúvidas de que a institucionalização de idosos contribui para o aparecimento de sinais de depressão ou da piora desta. A mudança de rotina, a distância da família, as perdas inerentes ao envelhecimento contribuem para o aparecimento da desesperança, da tristeza, da solidão, da sensação de abandono e do isolamento, sinais precursores da depressão tendo o idoso que dar um novo significado à sua vida.

Sendo a indicação principal do floral proporcionar um equilíbrio emocional e auxiliar no tratamento destes problemas, buscou-se melhorar a qualidade de vida de idosos institucionalizados com sinais de depressão através do seu uso, devolvendo a eles a esperança de vida, a fé, a sensação de acolhimento, de conforto espiritual e de pertencimento a uma “família” que, na situação estudada, são os moradores da instituição.

Em uma análise qualitativa evidenciou-se uma maior interação entre as idosas, entre elas e a equipe cuidadora e melhora na qualidade de vida. Algumas delas chegaram a verbalizar que “a depressão e a tristeza haviam sumido” e que estavam se sentindo bem melhor após iniciar o uso do floral. As funcionárias da enfermagem observaram melhora nas moradoras em relação ao contato entre elas ou com a equipe de enfermagem.

Uma característica importante no uso dos florais é que para cada paciente o tempo de ação para a melhora do quadro é variável, portanto não se pode padronizar um modo único de avaliação sem considerar a individualidade de cada paciente. O uso de alguns florais pode também reagudizar o quadro de sintomas, dando a impressão de piora, porém sua ação proporciona ao usuário entrar em contato com os seus problemas, conseguindo através do autoconhecimento a melhora gradativa do seu desequilíbrio.

Seria interessante a realização de mais pesquisas e diversificação do tipo de avaliação para analise do uso de florais, além dos métodos tradicionais, para que sua eficácia possa ser cada vez mais, confirmada, como foi verificada no término desta pesquisa.

Referências bibliográficas:

ANDRADE, Ana Carla Alves de et al. Depressão em idosos de uma instituição de longa permanência (ILP): proposta de ação de enfermagem. Rev Gaúcha de Enferm, Porto Alegre, v. 26, n. 1, p. 57-66, abr. 2005.

ÁVILA-FUNES, João Alberto et al. Síntomas depresivos como factor de riesgo de dependencia en adultos mayores, Salud Publica de México, v. 49, n. 5, p. 367-375, set-out. 2007.

CONVERSO, Maria Estelita Rojas; IARTELLI, Isabele. Caracterização e análise do estado mental e funcional de idosos institucionalizados em instituições públicas de longa permanência. J Bras Psiquiatr, São Paulo, v. 56, n. 4, p. 267-272, 2007.

FERRARI, Juliane F; DALACORTE, Roberta Rigo, Uso da Escala de Depressão Geriátrica de Yesavage para avaliar a prevalência de depressão em idosos hospitalizados. Scientia Médica, Porto Alegre, v. 17, n.1, p. 3-8, jan-mar. 2007.

OLIVEIRA, Katya Luciane de et al. Relação entre ansiedade, depressão e desesperança entre grupos de idosos. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 11, n. 2, p. 351-59, mai-ago. 2006.

PARADELA, Emylucy Martins Paiva; LOURENÇO, Roberto Alves; VERAS, Renato Peixoto. Validação da escala de depressão geriátrica em um ambulatório geral. Rev Saúde Pública, v. 39, n. 6, p. 918-23, 2005.

PARADELA Emylucy Martins Paiva. Um estudo da validade e confiabilidade da Escala de Depressão Geriátrica versão reduzida em um ambulatório geral. 2002.  Dissertação (Mestrado em Saúde Coletiva) – Instituto de Medicina Social da Universidade do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2002.

PESTANA Luana Cardoso; SANTO, Fátima Helena do Espírito. As engrenagens da saúde na terceira idade: um estudo com idosos asilados. Rev Esc Enferm USP. v. 42, n. 2, p. 268-75. 2008.

TIER, Cenir Gonçalves, Depressão em idosos residentes em uma instituição de longa permanência (ILP): identificação e ações de Enfermagem e Saúde. 2006. Dissertação (Mestrado em Enfermagem) – Fundação Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande , RS, 2006

VASCONCELOS, Eliane Maria Ribeiro de. Cuidado de enfermagem, com visão holográfica, na abordagem de idosas com depressão, utilizando terapia floral de Bach. Tese (Doutorado em Enfermagem) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2003.

*Lúcia Regina Lemos Ribeiro
Enfermeira formada pela Escola de Enfermagem da USP Especialização em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP – FSP-USP Especialização em Terapia Floral pela Faculdade de Ciências da Saúde – FACIS Curso de BodyTalk Access Curso de Reiki Nível I (a caminho do Nível II)

Atualmente trabalha como enfermeira no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo – Ambulatório do Fórum de Santana

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